SEX, 10 de out / 2008

Autopeças acompanham férias coletivas anunciadas pelas montadoras

Delphi e Visteon, duas das maiores empresas de autopeças do Brasil e do mundo, se preparam para dar férias coletivas a parte do efetivo como forma de acompanhar as férias já anunciadas na semana passada pela General Motors e Fiat, dois dos seus principais clientes. Gábor Deák e Hélio Contador, os presidentes dessas duas empresas, respectivamente, garantem que os planos de investimentos e de ampliações industriais estão mantidas, apesar da avalanche de incertezas que ronda o setor hoje.

Mas, apesar da manutenção de cronogramas de investimentos e de orçamento para o próximo ano em um setor que de fato ainda não experimentou queda de demanda no mercado de veículos, as preocupações parecem ter aumentado significativamente nos últimos dias por conta da pressão de custos, provocada pela alta do dólar. Os fornecedores já começam a pleitear ajustes de preços aos fabricantes de peças maiores. 

Durante um seminário da engenharia automotiva, promovido pela SAE (Sociedade de Engenharia Automotiva), ontem, em São Paulo, o presidente da Renault no Mercosul, Jêrõme Stoll, decidiu aproveitar a presença maciça de representantes de fabricantes de autopeças para dar um recado aos seus fornecedores. 

"A situação mostra que o Brasil ainda é fraco em relação ao mercado internacional . O dólar valorizou subitamente . A maneira que teríamos para trabalhar com isso seria estar com um índice de nacionalização de componentes alto. Mas muitos fornecedores ainda operam com uma alta taxa de importação. Por isso, eles terão mais dificuldades. Isso nos servirá de lição", destacou o executivo. A Renault se prepara para um crescimento que, segundo cálculos da companhia, deveria chegar ao dobro do que crescerá o mercado este ano. Agora Stoll já fala até em usar o sistema de banco de horas se for necessário reduzir o ritmo de produção. 

No caso de Delphi e Visteon, as duas subsidiárias brasileiras têm ainda o agravante de que suas matrizes estão nos Estados Unidos. As duas também já foram, no passado, atreladas a montadoras americanas. Até o início de 2000, a Delphi pertencia à General Motors e a Visteon à Ford. Desde então, essas duas empresas começaram a fornecer para outras montadoras. Mas ainda mantêm forte vínculo com seus parceiros de origem. 

Contador, da Visteon, diz que a filial brasileira não depende de dinheiro da matriz. Aliás, já faz algum tempo que os problemas enfrentados com a queda do mercado americano de veículos fez com que as filiais da Visteon e da Delphi no Mercosul se tornassem ainda mais independentes. 

No caso das incertezas no Brasil, Contador diz que se a situação permanecer como está ainda é possível administrar os problemas. Mas, se o quadro se agravar, as preocupações aumentarão à medida em que os fornecedores menores de empresas como essas dependerem muito de crédito para continuar acompanhando o ritmo da cadeia automotiva. 

As férias coletivas surgem também como uma espécie de alívio, uma forma de ganhar fôlego em um momento em que as empresas estavam trabalhando 24 horas por dia. Era o que acontecia tanto na Visteon como na Delphi. "Agora poderemos dar férias em um ou outro turno mais envolvido com a produção da GM ou da Fiat", afirma Deák. "Mas não podemos parar as fábricas inteiras porque temos outros clientes", completa. 

Deák diz estar preocupado com a antecipação de férias nas montadoras. "Estamos sem saber como será em dezembro, quando tradicionalmente acontecem férias", afirma. 

Os fabricantes de autopeças parecem não acreditar até na reversão de um quadro que vinha tão positivo. "O ano de 2008 pode ser dividido em duas partes. Na primeira , depois de crescimento de mercado de até 30%, estávamos festejando. Quando fomos atingidos pelo bonde percebemos que não estávamos isolados, embora o Brasil esteja claramente mais preparado do que 10 anos atrás", destaca Deák. "Mas a atitude mais inteligente no momento é não tomar nenhuma atitude radical e observar o que vai acontecer", completa.

Fonte: Valor

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