QUI, 18 de mai / 2017

Custo do trabalho nas montadoras: desmontando a farsa

Paulo Cayres

O presidente da GM Mercosul, Carlos Zarlenga, afirmou em entrevista ao site de notícias UOL no dia 27 de abril, que o custo da mão de obra na produção de um automóvel no Brasil fica entre 40% a 50% do preço do carro, o que encarece o veículo, e que a reforma trabalhista vai reduzir esse valor, apoiando assim o maior desmonte de direitos dos trabalhadores na história do país.

Segundo ele, outro custo importante na produção são os impostos, que chegariam a ser mais de 50% do valor do carro.

Para Zarlenga, os gastos com os (as) trabalhadores (as) e os impostos – o chamado Custo Brasil – impedem a indústria brasileira de ser competitiva quando comparada à produção em outros países.

Composição real dos custos de produção
Em uma análise da Pesquisa Industrial Anual do IBGE (PIA), feita em 2014 pelo Dieese, é possível observar a estrutura de custos e receitas das empresas de automóveis, camionetas e utilitários. Para o estudo, o IBGE entrevistou 24 empresas do setor.

Dos custos incorridos no ano, 51,3% eram de operações industriais, que são aqueles diretamente envolvidos na produção. Aí não estão computados salários e encargos, mas os gastos envolvendo matérias primas, materiais auxiliares, componentes, compra de energia elétrica, combustíveis, peças e acessórios para a manutenção de máquinas e equipamentos, serviços industriais e de manutenção e reparação de máquinas e equipamentos ligados à produção prestado por terceiros.
Impostos e taxas (ICMS, IPI, PIS, COFINS, IPTU, ITR, IPVA etc.) somam 29,2% e não os 50% que o presidente da GM disse.

O custo da mão de obra, tanto da produção como do administrativo, incluindo todos os encargos trabalhistas (nas montadoras) é de apenas 8,8%. Se considerarmos toda a cadeia produtiva, o custo é de 13,4%, muito longe dos 40 a 50% dito pelo presidente da GM.

A estrutura de custos, apurada pelo IBGE, das empresas inscritas na Classificação Nacional de Atividade Econômica (CNAE) nº 291, para a fabricação de automóveis, camionetas e utilitários no Brasil em 2014 revelam a seguinte composição:

• Custos das operações industriais: 51,3%;
• Impostos e taxas: 29,2%;
• Gastos com pessoal nas montadoras:  8,8% (e, no total da cadeia produtiva, 13,4%);
• Outros custos: 10,7%.

O que o presidente da GM não diz mas é importante saber
Desde sua instalação no Brasil, a indústria automobilística só cresceu, sempre amparada em políticas de apoio adotadas pelos mais diferentes governos, conquistando importante espaço entre os grandes produtores mundiais.

As empresas não deduzem do Custo Brasil os subsídios fiscais, a doação de terrenos feitas pelos estados para que as montadoras se instalem em seu território – em troca da geração de emprego e da movimentação da economia local –, bem como o tratamento tributário especial dado através de subsídios do ICMS.

A margem de lucro das montadoras no país é uma das maiores do mundo: enquanto nos EUA a margem é 2%, e no restante do mundo gira ao redor de 5%, no Brasil é em torno de 10% (segundo estudo do banco americano Morgan Stanley, publicado em 2011).

Além disso, no Brasil, a indústria paga salários mais baixos dependendo da região onde a fábrica se instala. Em 2016, o salário de um trabalhador da FIAT em Goiana (PE) era 46% menor do que o de um trabalhador do mesmo grupo em Betim (MG). A alegação dos empresários é que o custo de vida seria menor nas novas regiões em relação às capitais. Só que, enquanto a diferença salarial é de 46% no exemplo citado, o custo da cesta básica era apenas 12% menor em Recife. E vale considerar também que o preço do veículo não é menor, independente do local de fabricação.

Em 2007, o Dieese publicou um estudo intitulado “Do Salário às Compras”, comprovando que as diferenças do custo da cesta básica nas diferentes regiões produtoras de veículos no Brasil são insignificantes.

Tendo como base este estudo, ainda em 2007, a Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT (CNM/CUT) lançou uma campanha nacional em defesa do Contrato Coletivo Nacional de Trabalho com o lema “SE O PREÇO É NACIONAL QUERO SALÁRIO IGUAL”.

Vale comparar ainda a diferença salarial entre trabalhadores no Brasil e nos EUA através do preço do automóvel Corolla nos dois países.

Dados do Dieese de dezembro de 2015 mostram que o modelo custava no Brasil R$ 69.690,00, já com os tributos, e que a remuneração média anual do trabalhador no setor automotivo era de R$ 73.572,14. Ou seja, com essa remuneração, o trabalhador brasileiro poderia comprar 1,05 Corolla. Já nos EUA, o preço do Corolla, incluídos os tributos, era de R$ 76.668,00 (considerada uma taxa de cambio de R$ 4,00/dólar), enquanto a remuneração média do trabalhador americano na indústria automotiva era de R$ 318.052,00 (considerada a mesma taxa cambial). Portanto, o trabalhador americano poderia adquirir com os seus rendimentos médios anuais, 4,14 Corollas. Ou seja, quatro vezes mais que um metalúrgico brasileiro. Isso demonstra que, a partir de um produto igual como o Corolla, a diferença salarial não é só regional, mas global.

Com as maiores margens de lucro do mundo, diferenças salariais entre as regiões do Brasil e em comparação com o mundo e um custo da mão de obra de apenas 8,8% do custo total do produto, a afirmação do presidente da GM – de que a reforma trabalhista reduzirá o preço do automóvel –, é falsear a realidade, com o objetivo de iludir o leitor mais desatento.

Com essa reforma, a única redução será a dos direitos dos (as) trabalhadores (as), conquistados com muita luta, que serão condenados a um forte achatamento dos seus rendimentos para aumentar ainda mais o lucro dos patrões.

EM DEFESA DA DEMOCRACIA, NENHUM DIREITO A MENOS! NÃO ÀS REFORMAS TRABALHISTA E DA PREVIDÊNCIA!

* Paulo Cayres é metalúrgico na Ford e presidente da Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT (CNM/CUT)

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