QUI, 01 de mar / 2018

'Existimos e resistimos na PUC', diz filha de doméstica formada em Direito

“Eu me dedico à resistência daqueles que cresceram sem privilégios, sem conforto e sem garantias de um futuro promissor. Daqueles que foram silenciados na universidade quando pediram voz e que carregaram desde cedo o fardo do não pertencimento às classes dominantes.” As palavras da bacharel em Direito Michele Maria Batista Alves ganharam espaço nas redes sociais após seu discurso de formatura na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) na semana passada.

Nesta terça-feira (27), Michele esteve nos estúdios da Rádio Brasil Atual e conversou com a repórter Marilu Cabañas. A palavra adotada pela recém-formada como fio condutor de seu discurso, "resistência", foi o ponto de partida do bate-papo. “É uma palavra que usávamos muito na PUC, os bolsistas. Sempre que tinha algum evento, costumávamos dizer que existíamos e resistíamos na PUC”, disse.

A universidade fica em uma região nobre de São Paulo, no bairro de Perdizes, zona oeste, com altas mensalidades e poucos bolsistas. “A universidade ainda não é um ambiente ocupado pelas pessoas de classes mais baixas. Principalmente em faculdades de referência, essa resistência fica mais difícil por conta de pessoas despreparadas que estão no ambiente para fazer o acolhimento”, afirmou Michele.

A mãe de Michele é empregada doméstica e é justamente os filhos dos trabalhadores que a bacharel disse representar. “Somos filhos e filhas dos garis, das empregadas, das faxineiras, dos porteiros. Pessoas que batalham muito e percebemos isso no Brasil, essa possibilidade de entrarmos nas universidades e temos esses profissionais como grandes lutadores, incentivadores, que trabalharam para que os filhos tivessem o que eles não tiveram: educação.”

Michele foi a primeira da família a entrar em uma universidade e a segunda a se formar. “Tenho uma prima que se formou primeiro, em Fono, na USP. Ela se formou antes, mas fui a primeira a entrar”, disse.

“Esses estudantes, todas as pessoas que se sentiram representadas, são protagonistas. Resistir é protagonismo. Não existe vitimismo. Essa é a grande mensagem, você tem que pedir voz, ocupar os espaços. Isso é ser protagonista. Não existe espaço para vitimismo quando você luta, se impõe e se reconhece (…) Eu tive muitos privilégios na minha vida. Um deles foi ter pessoas que me ajudassem. Os patrões da minha mãe, por exemplo. Não sou parâmetro para outras pessoas”, completou.

(Fonte: Rede Brasil Atual)

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