QUA, 24 de out / 2018

Pelo direito de discordar

Maicon Vasconcelos*

Desde a Revolução Industrial onde crianças, mulheres e homens trabalhavam por até 16 horas diárias, em ambientes insalubres e que, muitas vezes, sofriam mutilações, com ganhos que cobriam somente a alimentação daquele dia e com péssimas condições de habitação, a classe trabalhadora, vem se reconhecendo, se organizando e conquistando direitos ao longo do tempo. Mas sem saber como influenciar o funcionamento e sobre como intervir na economia fora dos muros das empresas. Nesse processo, os trabalhadores e trabalhadoras percebem que muitas das suas pautas estão vinculadas à política econômica do país, mas não possuem o direito de escolher quem comandaria sua própria nação.

Segundo economistas, a história dos trabalhadores é a história da luta por conquistas salariais, melhores condições de trabalho, estabilidade financeira, direitos sociais e cidadania. Através de um processo de união e poder de mobilização, foi conquistado o direito de participar de forma democrática na escolha de quais propostas políticas e econômicas são melhores para a classe trabalhadora a nível nacional, representada também através do voto nas eleições presidenciais. Deste momento em diante, a classe trabalhadora conquistou o direito de participar de outros espaços de decisão econômicos, políticos e sociais.

No Brasil, por exemplo, os sindicatos negociam suas convenções coletivas e colocam para os trabalhadores aprovarem ou não as propostas, baseando-se na correlação de forças do momento. Os aumentos salariais, a redução de jornada de trabalho, o adicional de férias, o 13º salário, a licença maternidade, Participação nos Lucros ou Resultados (PLR), assistência médica, alimentação, plano de carreira, direito de se organizar, são conquistas que dentro e fora dos muros das fábricas tiveram a ação direta dos trabalhadores, amparados pelo democrático direito de se manifestar, de reivindicar e de se posicionar.

Mas nem sempre foi assim. Houve um período da nossa recente história, descrita nos livros e ainda presente na memória e na carne de muitos trabalhadores, em que se instaurou uma ditadura civil militar, prometendo crescimento econômico, estabilidade política e paz social. Mas, na prática, os trabalhadores não tinham o direito de questionar os índices econômicos e, muito menos, de se organizar livremente. Havia policiamento e repressão armada dentro das empresas para identificar possíveis questionadores. Os índices econômicos eram frequentemente mascarados e a mídia se encarregava de veicular unicamente a versão oficial do governo. Por não ter o direito de questionar, os trabalhadores perdiam o poder de compra de seus salários e, durante muito tempo, nada puderam fazer.

Outro país que passou por uma ditadura foi o Chile onde, em 1981, o sistema previdenciário, que era público, muito parecido com o do Brasil de hoje, foi substituído por um sistema privado de capitalização com a promessa de que cada trabalhador poderia se comportar como um acionista na bolsa de valores, ou seja, recebendo pelo tanto que quiser e puder investir. O Chile foi o primeiro país do mundo a privatizar sua previdência. Na prática, o que se viu 30 anos depois da reforma promovida é que os beneficiários desta nova modalidade foram os conglomerados econômicos que administravam estes fundos, que não coincidentemente, apoiavam o regime. As gerações de trabalhadores que contribuíram com o valor integral das cotas, no momento da aposentadoria e do resgate, se surpreenderam ao receber entre 20% a 30% do valor esperado. O reflexo dessa política foi uma geração de trabalhadores em idade de aposentadoria que não podiam parar de trabalhar por não poderem se manter financeiramente com os custos dos medicamentos e serviços específicos. Os que não queriam mais trabalhar, se suicidavam para não ser um “peso” para sua família. Milhares de chilenos se suicidaram. No ano passado, diante dessa calamidade social, e suicídio em massa, o povo chileno foi às ruas em repúdio a essa política e o governo retornou ao modelo público de previdência.

É necessário que nós, trabalhadores, defendamos nosso direito de intervenção e participação nos espaços de poder! É necessário que nós, trabalhadores, defendamos o direito de discordar de qualquer índice econômico, de qualquer governo que seja, até mesmo para que possamos, com a responsabilidade usual, exercer nosso direito de reivindicar uma reposição de inflação ou até mesmo aumentos reais em nossos salários ou na PLR.

É necessário que defendamos candidaturas que pensem na indústria nacional, mas que principalmente, garantam a participação dos trabalhadores nessa política. Porque entre trabalhadores e empresários há interesses conflitantes e fazermos parte desses espaços de construção é uma das formas de que não ocorram abusos ou excessos por parte das empresas.

É necessário que os trabalhadores defendam a democracia, pois todas essas conquistas e espaços de intervenção que temos, foram consolidados nesse breve período consecutivo de 30 anos e somente nela temos a possibilidade de discordar e propor alternativas.

Nesse segundo turno das eleições que ocorrem neste domingo (28) não podemos vacilar! Não há espaço para isenção ou desânimo! É necessário que os trabalhadores defendam candidaturas comprometidas com a democracia. Já não se trata exclusivamente de mais uma questão partidária, mas sim de sobrevivência da organização dos trabalhadores, independente da bandeira que usem ou das diferentes formas em que se organizam. É necessário que os trabalhadores garantam seu direito de discordar.

*Maicon Vasconcelos, trabalhador na Mercedes Benz e Secretário de Relações Internacionais da CNM/CUT

 

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